12 de abril de 2010

Repetições: a vitória do medo; e lágrimas!

-----A criança, de olhos vivos e aspecto trigueiro, olhou-me de soslaio, intrigada. E com deferência considerou responder-me, solicitando autorização para pousar o bolo meio comido em cima do balcão. E assim, juntou os deditos todos da mão direita, levantou o indicador da esquerda e respondeu: «Tenho estes!». E eram seis os simples anitos do astuto petiz, cujos olhos tão profundos podiam encher de sombras os imensos vazios das noites escuras – seis anos de energia inocente a celebrar com brincadeiras a raridade da vida, nessa supremacia que é não ter senão uma imensa sede de viver. E quando lhe perguntei se me dava do bolo, respondeu que não, que o bolo era dele. E nesse inegável juízo de propriedade foi terminar a guloseima para junto da mãe, também ela toda trigueira, contudo esquecida de si, de tão diluída na cruel desilusão em que vida nos transforma.
-----E naquele quadro percebi o roubo que a vida me fez – e vim por minha vez a correr escrever este texto: é que a certa altura invadiu-me a certeza de que, olhando-os, os podia roubar. E isso não podia ser – não deve um salteador ter sido vítima do mesmo furto que procura cometer. E aqui me declaro incompetente para subtrair aquilo que não tive a capacidade de guardar. E estas lágrimas hão-de ser o selo sagrado desta promessa tão contrária a mim, tão cravada em mim… e tão indiferente a mim!

20 de setembro de 2009

não há palavras, só música; depois vê-se...

-----Por enquanto isto vai ficar assim; e calado vou dizendo tudo. Deixo-vos a mais recente (tão nova que ainda cheira a novo) canção dos Pearl Jam e dos seu carismático vocalista Eddie Vedder - Just Breathe; e mais não digo.



Pearl Jam - Just Breathe by iHugo

13 de julho de 2009

Retornos; e as rabugices do costume...

-----É nas letras que encontro entendimento para as horas más. É assim desde os tempos em que era uma criança triste, e que escrevia tudo (alguns desses textos chegaram a valer-me nome e prémios na escola) com a ávida destreza dos desconsolados. Isto a propósito deste blogue, criado em resposta ao desafio «e se criasses um blogue?» que alguém me colocou numa conversa no messenger. E eu criei-o sem saber que criava uma porta para o meu passado. Recentemente celebrou o seu terceiro aniversário; ninguém reparou… ainda bem!

5 de junho de 2009

Na hora de falar, cala-se a palavra... Obrigado a todos!

-----Vou ter de me familiarizar com estes 34 anos acabadinhos de fazer: ainda as doze badaladas – isto dito assim até parece uma fábula! – se repetiam nos silêncios da noite e já me deliciava a desembrulhar a prenda que mantiveste escondida nesses sorrisos matreiros de quem me conhece até às minhas mais frívolas excentricidades. Depois, uma mensagem no telemóvel; a seguir outra (credo, eu tenho assim tantos amigos?!)... e num piscar de olhos o telefone desassossegou-se em dezenas de bips que me remetiam para uma caixa de entrada repleta de intensos votos de prosperidades, de abraços sentidos... e de coisas.
-----Nunca fui um grande aniversariante, confesso; e nestes dias encho-me quase sempre de atrapalhados rubores nos agradecimentos, pois sei que lidar com um homem como eu requer paciências e cuidados que, em boa verdade, não deveria sequer saborear. Contudo é esta a minha condição: sou um fino recorte sobre um horizonte de sentimentos profundos; tão doce no abraço como implacável na hora de fazer soar o trovão. Por isso te agradeço (e vos agradeço) este meu trigésimo quarto aniversário; os parabéns são para ti, e para todos vós.

5 de maio de 2009

inventários; certezas de que tudo passa e do muito que há-de vir...

-----A um mês de completar 34 anos de idade, chegou a altura dos meus balanços: não foi tudo mau; contudo não foi tudo bom. Procurei sempre motivos intensos para continuar a viver; e, na minha história – esta que escrevo neste blogue – custam-me apenas alguns amores (e outros incontornavelmente sofridos desamores) de que, em consciência, me não arrependo.
-----Trinta e três anos e onze meses; ainda me lembro das ansiedades de ser homem que afligiam a minha meninice. Tudo era belo e, no entanto, tudo se transformou: a criança que fui amadureceu terrivelmente, sobrando apenas uma leve recordação da sua meiguice. E isto para vos dizer que tudo passa; vertiginosamente, implacavelmente... completamente.

1 de maio de 2009

amor de perdição; ou as coisas que a vida nos dá?

Apresentação gentilmente cedida pela Andrea (que todos temos no pensamento como a incontornável pomba!) a propósito do décimo aniversário do chat blá blá. A todos os que fazem parte deste universo um sentido agradecimento por tantos e bons momentos de excelente companhia.

26 de abril de 2009

a exérese dos sentidos; alguns medos e afins – e dores...

-----Eis que um telefonema bastou para me alterar os planos: e é já amanhã que vou à faca, coisa que só estava a prever para Junho. Contudo, os senhores da Saúde, céleres quanto baste, descobriram espaço nas suas congestionadas agendas para a minha (– eles é que dizem!) simples cirurgia. Era pegar ou largar: as filas de espera estendem-se para além da barreira dos anos, e eu peguei; mau grado a vontade que tive de largar.
-----Assim, estarei amanhã às 11 horas no hospital; e lá para o meio-dia sairei do bloco operatório com mais um corte na região nadegueira: é que, para mal dos meus pecados, a exérese cirúrgica de um quisto sacrococcígeo a que me submeti em Novembro – e da qual convalesci dolorosamente durante mais de três meses – não bastou; e esta é já a segunda temporada deste thriller tão cheio de sensações fortes, com facas, agulhas, toalhas e lençóis.

11 de abril de 2009

Paixão, fundamentalismo; e a forma de se acreditar em quase tudo...

-----Mataram-no ontem, pronto; estava escrito que seria assim – e os que acreditam celebram-lhe o sacrifício com grandes festividades, indiferentes ao facto de um mesmo coitado sofrer a mesma morte ano após ano para lhes remir os pecados. É sabido (embora nunca tal tenha sido provado) que há-de ressuscitar amanhã: e sairá incógnito do sepulcro, para mostrar as chagas ensanguentadas ao arregalado Tomé, dizendo «acredita-me Tomé, acredita-me!».
-----Eu não acreditaria; virar-lhe-ia as costas pois nunca confio em martírios e tão pouco sou um homem de fé – nem desta fé! Não me sossega a esperança de uma salvação encharcada no sangue de um homem-deus, que se imortalizou na espectacularidade da expiação pela dor. Contudo é disto que o povo gosta há mais de dois mil anos; e, em Roma, a grande meretriz vai agradecendo às multidões, acenando-lhes sorrisos suficientemente sentidos.

6 de abril de 2009

Porque eu também erro...

-----Estar contente com a vida, recebê-la de peito aberto é exigível ao comum dos homens; e é mais do que uma exigência – é uma obrigação de carácter. Contudo, no meu caso particular, são os sentimentos que regulam quase sempre as minhas disposições. Admito que não tenho andado bem nestes últimos dias...

1 de abril de 2009

Estas coisas aborrecem-me, pronto!

-----É dia 1 de Abril e está estabelecido que este deve ser o dia das mentiras. No entanto, desagrada-me que haja assim um momento específico para se espetar uma peta (a experiência diz-me que para isso servem também os outros dias todos). Não me apraz, portanto, saber que se oficializou um assunto tão estúpido, atribuindo-lhe até um dia no calendário com honras de celebração: é que as brincadeiras que lhe são inerentes incomodam-me de facto; e deveras causam-me sempre alguma espécie de prejuízo.

31 de março de 2009

As condições devidas; e outros pensamentos...

-----Andei a remexer nas estantes da sala à procura de um livro que fosse, no seu conceito, diferente de toda a literatura ficcionada a que me dediquei nos últimos dias; fui encontrá-lo escondido (a fazer justiça à atitude do seu autor enquanto viveu) atrás de uma pilha dos outros livros que ainda não tive coragem de ler. Trata-se do Crepúsculo dos ídolos, uma compilação de textos de Friedrich Nietzsche (o filósofo mais maltratado e incompreendido da história do pensamento, devido à crítica feroz que fez à moral cristã e ao mundo ocidental), das Edições 70.
-----Nietzsche negou categoricamente a fragilidade da condição humana ao recusar ver virtudes na humildade; e na sua busca por uma nova moral criou o super-homem, proclamando inflamadamente a morte de Deus. Considerou também não haver espaço no mundo para seres inferiores; uma atitude que hoje lhe vale, ainda que erradamente, uma certa colagem ao nazismo de Hitler.
-----Contudo, não pretendo aqui falar de Nietzsche; quero apenas transcrever um pequeno texto que encontrei ao folhear esse livro. É que estou convencido de que alguém terá, ao lê-lo, algum entendimento sobre o que pretendo com ele. Assim espero.

«Os homens de mais espírito – suponho que são os mais ousados – experimentam também, de longe, as mais dolorosas tragédias; precisamente por isso honram a vida, porque essa lhes contrapõe o seu máximo antagonismo.»

(Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos ídolos, edições 70)

26 de março de 2009

A remissão possível...

-----Iniciei hoje uma nova etapa na minha louca correria pelo mundo das sensações: reconquistei o meu filho e selei esse reencontro com lágrimas; foi num abraço intenso, carregado de dores profundas, que o ganhei – confesso que, passados que estão esses momentos, tudo me parece mais relativo agora, sem a assustadora pressão dessa horas.
-----E que dia tão louco, este: a esperança que alimentei durante a manhã diluiu-se na resignação com que tive de encarar algumas certezas tristes (confesso que não estava à espera de algumas verdades!); mas eu sei que na vida há momentos de perder, ainda que a derrota nos seja imposta por circunstâncias muito pouco esclarecidas. No entanto, no fim ganhei o meu filho (que é a maior batalha da minha persistente existência); e ganhei-me a mim, na certeza que tenho de que sou um adversário das adversidades.
-----Termino com um agradecimento aos meus advogados pelas palavras apaziguadoras: sem eles o incêndio seria muito mais devastador, e as explosões bem menos controladas; a eles, um sincero bem-haja.

24 de março de 2009

A verdade de La Palice (ou lapalissada / lapaliçada)...

-----Nem tudo o que se diz é verdade; tão pouco se pode definir a sinceridade, dada a singularidade do conceito. Contudo, há mentiras tão evidentes que se tornam ridículas – e essas são as mais difíceis de entender. Na minha vida a aldrabice é um facto consumado: as pessoas, provavelmente acossadas pela minha ingenuidade, recorrem frequentemente a artimanhas pouco ortodoxas para conquistar a minha confiança; e eu acredito nelas, ainda que as evidências do erro se cravem como punhais no meu entendimento.
-----Nunca lhes percebi os motivos. Hei-de, no entanto, manter-me fiel aos meus princípios, já que é esse o traço mais vincado da minha personalidade. Perdoar-lhes-ei condescendentemente cada um desses momentos de ignomínia; e nunca farei do rancor uma arma, pois eu não sou assim.
-----Sei que algumas pessoas vão ler este texto; a essas reafirmo a certeza do recado – as palavras aqui escritas são para todos vós, sem querer atingir ninguém em particular. Cabe-vos, antes de mais, avaliar se as mereceis.

13 de março de 2009

Pedaços de tempo...

-----Aborrecido com o processador de texto (que não tem de facto culpa dos meus súbitos vazios de criatividade), fiz uma pausa para um cigarro. Mas vi-te sentada na cama, serenamente compenetrada na imensidão de papéis espalhados nos cobertores, e retrocedi. Assustaste-te quando me deitei ao teu lado; e depois sorriste ante o meu olhar inflamado. Puxei-te para mim; num gesto brusco arranquei-te a camisola, deixando que a palidez da tua pele me inebriasse a razão. A paixão incendiou-me quando me debrucei sobre o teu perfume – e tu cedeste, inclinada para trás, na urgência de me sentires entrar no teu corpo.
-----Fizemos amor em silêncio, primeiro devagar; depois os suores e os cheiros diluíram-se em gemidos, enquanto acometíamos furiosamente um contra o outro, explodindo de prazer. As carnes estremeceram no grito que cortou o silêncio do quarto; e adormecemos enrolados nos papéis molhados, acariciados pela brisa morna que corria da janela mal fechada.