12 de abril de 2010

Repetições: a vitória do medo; e lágrimas!

-----A criança, de olhos vivos e aspecto trigueiro, olhou-me de soslaio, intrigada. E com deferência considerou responder-me, solicitando autorização para pousar o bolo meio comido em cima do balcão. E assim, juntou os deditos todos da mão direita, levantou o indicador da esquerda e respondeu: «Tenho estes!». E eram seis os simples anitos do astuto petiz, cujos olhos tão profundos podiam encher de sombras os imensos vazios das noites escuras – seis anos de energia inocente a celebrar com brincadeiras a raridade da vida, nessa supremacia que é não ter senão uma imensa sede de viver. E quando lhe perguntei se me dava do bolo, respondeu que não, que o bolo era dele. E nesse inegável juízo de propriedade foi terminar a guloseima para junto da mãe, também ela toda trigueira, contudo esquecida de si, de tão diluída na cruel desilusão em que vida nos transforma.
-----E naquele quadro percebi o roubo que a vida me fez – e vim por minha vez a correr escrever este texto: é que a certa altura invadiu-me a certeza de que, olhando-os, os podia roubar. E isso não podia ser – não deve um salteador ter sido vítima do mesmo furto que procura cometer. E aqui me declaro incompetente para subtrair aquilo que não tive a capacidade de guardar. E estas lágrimas hão-de ser o selo sagrado desta promessa tão contrária a mim, tão cravada em mim… e tão indiferente a mim!

5 comentários:

Anónimo disse...

A vida é contrária aos propósitos de cada um, queremos e não temos, temos e não queremos. Um dia acordámos e o tempo passou, olhamos para trás e já não está lá, desperdiçamos o tempo que não tínhamos, procuramos e achamos - agora que achamos temos medo!...
Raio de contradições de vida, os sonhos passam, a vida passa, e os pesadelos permanecem, esses que não queríamos mas que não nos largam. Será que temos medo da esperança que um dia nos confrontou e não soubemos agarrar?!...
Há promessas que simplesmente temos de cumprir - as de amor - amor esse que nos apanha e nos invade num estreito aperto de dor e nos magoa, mas que nos aquece para todo o sempre.

Beijo

Ana Pinheiro disse...

Tens uma forma de escrever muito peculiar... muito descritiva... Uma viagem!
Será que foi a vida que te roubou? Ou terás deixado-te roubar? :)

Beijinho terno.

Anónimo disse...

Na vida são pequenos gestos como um sorriso, um olhar, uma palavra, um abraço e até mesmo um silencio, nos mudam e nos marcam para todo o sempre... as crianças têm o dom de transformarem as palvras mais puras e doces em verdades absolutas que mts vezes nos magoam sem que elas se apercebam da sua crueldade... reviver o passado atravez do presente apenas nos alerta da necessidade que cada um tem de se libertar de fantasmas, de medos e as lagrimas lavam a alma trazem-nos paz e saudade...

o facto de perceberes as tuas limitações e fraquezas significa que todos os dias te tentas superar e melhorar como ser humano mesmo qd ñ te das conta... beijinhos (Margarida)

Ana Pinheiro disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Ana Pinheiro disse...

Obrigada pelo cuidado simpático.
Beijo terno.